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sexta-feira, 27 de março de 2026

Esta terra não é para velhos ...

 


Ninguém nos avisa. Não há manual, não há curso prévio, não há aquele momento em que alguém se senta conosco e diz: um dia vais cuidar dos teus pais, e vai ser tudo menos simples. Crescemos habituados a que eles estejam lá — sólidos, presentes, a resolver o que nós não conseguimos. E depois, sem data marcada e sem aviso prévio, os papéis invertem-se. De repente somos nós a fazer as marcações médicas, a lembrar os medicamentos, a preocuparmo-nos se chegaram a casa.

O que ninguém conta é que eles são rebeldes. E o são muito mais do que os nossos filhos alguma vez foram rebeldes. Há nessa resistência uma dignidade ferida, uma espécie de quem julgam que são para mandarem em mim que é simultaneamente frustrante e completamente compreensível. Durante décadas foram eles a ditar as regras, a ter as respostas, a ser a âncora. Aceitar a ajuda do filho ou da filha é, de certa forma, aceitar que algo mudou — e isso deve  uma maneira que nenhum de nós consegue medir. Se é duro para nós para eles também não deve ser nada fácil.

Penso muitas vezes nos que passam por isto sozinhos. Não por escolha, mas porque a vida foi assim. Idosos que acordam de manhã sem ter a quem ligar, sem ninguém que verifique se está tudo bem. Ter filhos não é garantia de nada — e isso é uma verdade que nos desconforta, mas que existe. Nem todos os filhos são bons filhos. Nem todos os pais foram bons pais. As histórias de cada família são opacas para quem está de fora, e como diz a minha mãe com a sabedoria simples das pessoas que viveram muito: só sabemos o que se passa no convento quem lá vai dentro.

Quando nos tornamos cuidadores, descobrimos um mundo novo — o mundo do apoio aos idosos. E ficamos rapidamente desiludidos. No papel existe muito: estruturas, serviços, linhas de apoio, respostas sociais. Na prática, no terreno, no dia-a-dia concreto de quem precisa, há muito pouco. O sistema existe em documentos; a realidade é outra.

E esta realidade, percebo agora, não se limita aos humanos. Tentei recentemente contratar um seguro de saúde para o meu cão — nove anos, considerado idoso pelo sistema. O que se seguiu foi um filme. Exclusões sobre exclusões, condições que tornam a cobertura quase simbólica, portas que se fecham precisamente porque ele já não é novo. Para os idosos, sejam humanos ou animais, o país funciona da mesma forma: enquanto são jovens e saudáveis, tudo existe; quando mais precisam, o sistema recua. A lógica é sempre a mesma — protege-se quem já não precisa tanto de proteção.

E entretanto a nossa vida não pausa. O trabalho continua, as responsabilidades continuam, os filhos continuam, a casa continua. Somos confrontados com uma dualidade exigente — a família que construímos e a família de onde viemos — e temos de equilibrar as duas sem rede de segurança, sem preparação, e muitas vezes sem sequer ter espaço para processar o que estamos a sentir.

Esta terra, de facto, não está preparada para os velhos. Sejam humanos ou animais.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Uma nova Epidemia: Por Que Precisamos Tanto de falar e tão Pouco de Ouvir?


Eu devo andar com muito tempo (not) mas de vez em quando dá-me para refletir sobre assuntos profundos. Dei por mim a pensar, nesta nova era em que todos queremos falar mas não estamos dispostos a ouvir.
Nós vivemos numa era de "sempre ligados", onde a informação circula a uma velocidade nunca vista e apesar disso parece que estamos com menos informação de qualidade. Assim como, estamos constantemente conectados com todos mas  muitos sentem-se profundamente sós e incompreendidos. Uma das razões para este aparente contrassenso pode estar na crescente dificuldade das pessoas ouvirem verdadeiramente as outras. Parece que a necessidade de falar sobre si, se sobrepõe à sua capacidade de escutar, criando um vazio de empatia e compreensão pelo outro.

Por vezes encontramo-nos numa conversa onde, enquanto o outro fala, já estamos a pensar na nossa resposta, na nossa história, na nossa opinião, em vez de ouvir genuinamente o que está a ser dito. 
A atenção, que é a grande riqueza  do século XXI, está cada vez mais dispersa. Com esta evolução digital e a cultura do "eu" nas redes sociais, somos constantemente incentivados a mostrar a nossa imagem, as nossas conquistas, as nossas frustrações. Estamos em busca de uma aprovação efêmera, de um publico maioritariamente desconhecido. 
Isto de falar sobre nós próprios não é, por si só, negativo. É natural gostar da partilha de experiências e sentimentos. O problema aparece quando essa necessidade se torna egocêntrica. As conversas tornam-se em sequências de monólogos, onde cada um quer falar mais que o outro, sem ouvir genuinamente o que o outro tem para contar sobre si.

As consequências desta "nova epidemia" são notadas no comportamento de cada um. Não faz assim tanto tempo, os amigos e família eram o principal refúgio para desabafos, conselhos e apoio emocional. Com eles partilhamos experiências e angústias à espera de um ombro amigo e conselhos válidos. Hoje, muitos dizem sentirem que não têm ninguém disponível nas suas amizades e família para ouvir sem julgar, para oferecer um conselho ou, simplesmente, para estar presente.
Esta falta de empatia tem levado a um grande número de pessoas a procurar ajuda profissional. A terapia, que antes era vista com algum estigma, tornou-se para muitos um espaço para serem ouvidos e compreendidos. 
O terapeuta torna-se nesse "apoio" imparcial, a escuta ativa e a capacidade de ajudar a organizar pensamentos e emoções, algo que antes era, em parte, colmatado pelas pessoas mais próximas. A crescente procura por psicólogos e psiquiatras (e bem) pode ser um sintoma de que a sociedade, enquanto coletivo, está a falhar na sua capacidade de oferecer um suporte emocional básico através da simples, mas poderosa, arte de ouvir.

E notamos isto, desde as camadas mais jovens até ao idosos. Quantos idosos têm uma solidão imensa pois não têm mais um vizinho com que falar, alguém que o ouça? Desde muito cedo digo à minha pequena "tens uma boca e dois ouvidos" tens de ouvir mais e falar menos". E hoje em dia as redes sociais vieram exacerbar este comportamento egocêntrico da sociedade. Julgamos sem ouvir, condenamos sem sequer saber toda a história, insurgimo-nos com os cabeçalhos, sem ler todo o artigo... isto é sintomático, não é? 

Não tenho formulas, nem soluções para isto... infelizmente, mas consigo olhar ao meu redor e refletir sobre esta questão.
Ouvir, podemos considerar um acto de empatia. Mas acho que acima de tudo estamos numa crise de Empatia.