Ninguém nos avisa. Não há manual, não há curso prévio, não há aquele momento em que alguém se senta conosco e diz: um dia vais cuidar dos teus pais, e vai ser tudo menos simples. Crescemos habituados a que eles estejam lá — sólidos, presentes, a resolver o que nós não conseguimos. E depois, sem data marcada e sem aviso prévio, os papéis invertem-se. De repente somos nós a fazer as marcações médicas, a lembrar os medicamentos, a preocuparmo-nos se chegaram a casa.
O que ninguém conta é que eles são rebeldes. E o são muito mais do que os nossos filhos alguma vez foram rebeldes. Há nessa resistência uma dignidade ferida, uma espécie de quem julgam que são para mandarem em mim que é simultaneamente frustrante e completamente compreensível. Durante décadas foram eles a ditar as regras, a ter as respostas, a ser a âncora. Aceitar a ajuda do filho ou da filha é, de certa forma, aceitar que algo mudou — e isso deve uma maneira que nenhum de nós consegue medir. Se é duro para nós para eles também não deve ser nada fácil.
Penso muitas vezes nos que passam por isto sozinhos. Não por escolha, mas porque a vida foi assim. Idosos que acordam de manhã sem ter a quem ligar, sem ninguém que verifique se está tudo bem. Ter filhos não é garantia de nada — e isso é uma verdade que nos desconforta, mas que existe. Nem todos os filhos são bons filhos. Nem todos os pais foram bons pais. As histórias de cada família são opacas para quem está de fora, e como diz a minha mãe com a sabedoria simples das pessoas que viveram muito: só sabemos o que se passa no convento quem lá vai dentro.
Quando nos tornamos cuidadores, descobrimos um mundo novo — o mundo do apoio aos idosos. E ficamos rapidamente desiludidos. No papel existe muito: estruturas, serviços, linhas de apoio, respostas sociais. Na prática, no terreno, no dia-a-dia concreto de quem precisa, há muito pouco. O sistema existe em documentos; a realidade é outra.
E esta realidade, percebo agora, não se limita aos humanos. Tentei recentemente contratar um seguro de saúde para o meu cão — nove anos, considerado idoso pelo sistema. O que se seguiu foi um filme. Exclusões sobre exclusões, condições que tornam a cobertura quase simbólica, portas que se fecham precisamente porque ele já não é novo. Para os idosos, sejam humanos ou animais, o país funciona da mesma forma: enquanto são jovens e saudáveis, tudo existe; quando mais precisam, o sistema recua. A lógica é sempre a mesma — protege-se quem já não precisa tanto de proteção.
E entretanto a nossa vida não pausa. O trabalho continua, as responsabilidades continuam, os filhos continuam, a casa continua. Somos confrontados com uma dualidade exigente — a família que construímos e a família de onde viemos — e temos de equilibrar as duas sem rede de segurança, sem preparação, e muitas vezes sem sequer ter espaço para processar o que estamos a sentir.
Esta terra, de facto, não está preparada para os velhos. Sejam humanos ou animais.



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