Sinto-me enganada.
Não é uma sensação agradável. E o pior? Desta vez nem sequer questionei logo. A voz era boa, a música tocou-me qualquer coisa, e eu acreditei... Só passado um tempão, depois de ouvir a música outra vez e de me pôr a pensar, é que me fez click e fui pesquisar. Perguntei à AI (😁) se aquela cantora existia, e apontou-me pontos fortes para que talvez não exista a tal cantora.
Rais me parta.
A dada altura vi que a Pénélope Cruz seguia o perfil. E eu, ingénua, pensei: bom gosto! Se a Pénélope segue, é gente boa, não é? Pois. Mas afinal deve ser IA. Será que ela sabe? Será melhor avisá-la? 🤣 Para não ficar assim — como eu — com a cara de quem acabou de perceber que foi completamente enganada.
E atenção, não estou sozinha nisto. Estou a ficar como aquelas pessoas que agora já só perguntam a tudo e a todos: "Mas isto não será IA?" Só que desta vez nem isso fiz. Comi sem questionar. O que diz muito sobre como estas ferramentas evoluíram — e sobre como nós, utilizadores, ainda não temos os anticorpos todos desenvolvidos.
E não é só música. É também a comida que nunca existiu.
Porque a música foi o meu caso pessoal, mas o problema é muito maior. Há perfis de culinária enormes, com centenas de milhares de seguidores, onde as receitas parecem perfeitas, as fotografias são de cortar a respiração, os pratos têm aquela luz cinematográfica que nenhuma cozinha doméstica alguma vez teve — e são tudo gerado por IA. Não há cozinheira. Não há cozinha. Não há prato. Há um algoritmo que aprendeu o que é bonito e nos está a vender uma ilusão.
O grande problema: a falta de identificação
Não sou contra a IA. Longe disso. Acho que é uma ferramenta incrível — na fotografia, no vídeo, na música, na escrita criativa. Pode democratizar a criação de conteúdo, dar voz a quem não tem meios, abrir possibilidades que antes exigiam anos de formação técnica.
Mas há uma linha que não devia ser cruzada sem aviso: a linha da honestidade.
Deveria ser obrigatório identificar conteúdo gerado por IA. Ponto final. Uma etiqueta, um símbolo, uma declaração no perfil — o que for. Mas algo que diga claramente: "Isto foi criado com inteligência artificial."
Não me importo que a fotografia do prato seja gerada por IA — desde que eu saiba que é. Não me importo que a voz seja sintética — desde que não me façam acreditar que é uma artista de carne e osso. O problema não é a tecnologia. O problema é a mentira por omissão.
Estamos a criar uma internet onde é cada vez mais difícil saber o que é real. Isto tem consequências. Para a nossa confiança no que vemos. Para os criadores reais, que competem com o infinito e com o perfeito. Para a nossa sanidade coletiva, francamente.
O que devia acontecer (na minha humilde e indignada opinião) Perfis de redes sociais maioritariamente gerados por IA deviam ser identificados como tal. Fotografias e vídeos gerados por IA deviam ter marcação obrigatória — tal como existe para publicidade paga. Músicas com vozes sintéticas deviam ter aviso visível nas plataformas de streaming. E as plataformas — Instagram, TikTok, Spotify, YouTube — deviam ter responsabilidade nisto, não apenas os criadores.
É demasiado pedir? Talvez. Mas enquanto essa regulamentação não existe, cabe-nos a nós sermos mais céticos. Questionar mais. Pesquisar antes de partilhar. Antes de nos apaixonarmos por uma voz, uma receita, uma fotografia que parece demasiado boa para ser verdade — porque às vezes é mesmo isso: demasiado boa para ser verdade. O problema é que a tecnologia desenvolve-se mais rápido que a legislação sobre ela.
Tags: inteligência artificial, IA, redes sociais, opinião, conteúdo digital, criadores de conteúdo



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